Travessias que o corpo sente
- climaqueer
- 7 de mai.
- 2 min de leitura
No Entra Apulso,
o chão conta uma mudança que o corpo entende,
onde tem árvore, o ar respira,
onde tem asfalto... o calor prende.
É outro clima, outro peso,
outra forma de existir,
porque até o vento muda
dependendo de onde se pisa aqui.
Na Ilha de Deus,
as águas já não são como antes,
o rio carrega marcas da cidade
que insiste em ser distante.
A pesca vem mais difícil,
o sustento já não é certo,
porque a poluição invade
o que antes era sustento aberto.
E quem vive disso sente,
no bolso, na pele, na dor,
porque quando o rio adoece,
também adoece o trabalhador.
No Ibura,
a terra guarda memórias que não se apagam,
barreiras que descem,
levando histórias que nunca voltam pra casa.
E mesmo assim, se constrói por cima,
como se o tempo apagasse o chão,
mas ali ficaram vidas,
ali ficou ausência... e lembrança na mão.
É viver com medo da chuva,
é olhar o céu com tensão,
porque o risco não é só previsão,
é realidade no coração.
Em Beberibe,
o lixo se acumula como descaso,
ruas esquecidas,
como se ali não existisse espaço.
É o excesso que denuncia
o quanto falta cuidado,
como se aquela parte da cidade
tivesse sido deixada de lado.
E em todos esses territórios,
tem um corpo que sente mais,
um corpo que já anda atento,
que já vive em alerta demais.
Os corpos perifericos atravessa tudo isso,
o calor, o medo, a exclusão,
o risco da rua, o peso do olhar,
e ainda carrega a própria afirmação.
É território dentro do território,
é existir mesmo sem proteção,
é resistir todos os dias
entre o espaço e a negação.
Mas ainda assim,
há força onde tentam apagar,
há vida onde dizem não caber,
há coragem só de continuar.
Porque cada lugar atravessado
marca, muda, ensina a existir,
e no meio de tanta dureza,
a gente ainda escolhe... persistir.
Por: Bruno Alves

Bruno é um poeta, escritor, ativista pelos Direitos Humanos, homem trans negro e cria do Ibura, periferia do Recife.

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