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Travessias que o corpo sente

No Entra Apulso,

o chão conta uma mudança que o corpo entende,

onde tem árvore, o ar respira,

onde tem asfalto... o calor prende.


É outro clima, outro peso,

outra forma de existir,

porque até o vento muda

dependendo de onde se pisa aqui.


Na Ilha de Deus,

as águas já não são como antes,

o rio carrega marcas da cidade

que insiste em ser distante.


A pesca vem mais difícil,

o sustento já não é certo,

porque a poluição invade

o que antes era sustento aberto.


E quem vive disso sente,

no bolso, na pele, na dor,

porque quando o rio adoece,

também adoece o trabalhador.


No Ibura,

a terra guarda memórias que não se apagam,

barreiras que descem,

levando histórias que nunca voltam pra casa.


E mesmo assim, se constrói por cima,

como se o tempo apagasse o chão,

mas ali ficaram vidas,

ali ficou ausência... e lembrança na mão.


É viver com medo da chuva,

é olhar o céu com tensão,

porque o risco não é só previsão,

é realidade no coração.


Em Beberibe,

o lixo se acumula como descaso,

ruas esquecidas,

como se ali não existisse espaço.


É o excesso que denuncia

o quanto falta cuidado,

como se aquela parte da cidade

tivesse sido deixada de lado.


E em todos esses territórios,

tem um corpo que sente mais,

um corpo que já anda atento,

que já vive em alerta demais.


Os corpos perifericos atravessa tudo isso,

o calor, o medo, a exclusão,

o risco da rua, o peso do olhar,

e ainda carrega a própria afirmação.


É território dentro do território,

é existir mesmo sem proteção,

é resistir todos os dias

entre o espaço e a negação.


Mas ainda assim,

há força onde tentam apagar,

há vida onde dizem não caber,

há coragem só de continuar.


Porque cada lugar atravessado

marca, muda, ensina a existir,

e no meio de tanta dureza,

a gente ainda escolhe... persistir.



Por: Bruno Alves


Bruno é um poeta, escritor, ativista pelos Direitos Humanos, homem trans negro e cria do Ibura, periferia do Recife.


 
 
 

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